Essa é a pergunta que bate na cabeça de todos nós aqui. Nós, eu digo, os intercambistas. Agora já chegaram outros sete brasileiros. Quatro garotas e três caras. Ramon - que divide quarto comigo, Antônio, Felipe, Suanny, Emily, Milena e Gabi. Cada um reage de um jeito. Mas todo mundo tem concordado que o pior são os dois primeiros dias.
Depois de um treinamento de 3 horas no dia inicial, você vai pegar o primeiro dia inteiro de trabalho: 8 horas. A maioria de nós começamos no período da manhã. Quando você escuta o despertador tocando às 5 da manhã, morto de cansaço do dia anterior, e vai tomar banho. É avasalador.
Entrando debaixo do chuveiro, você fica de cabeça baixa e pensa no que vai enfrentar o resto do dia. Oito horas de trabalho repetitivo, num país há milhares de quilometros de casa, onde ninguém te conhece e você não conhece ninguém, longe dos seus pais, da sua casa, da sua cama, dos seus amigos e de todas as pessoas que você ama. Uma rotina completamente diferente da sua. Onde, no lugar de uma vida razoavelmente confortável, você tem que ralar em horário integral para pagar seu aluguel, a comida que você come e, até mesmo, uma simples bala que você queira.
Nesse momento até a arrogância chega a bater em você, a gente daqui conversando hoje, concordamos que todos pensam assim: "Putz, eu não preciso disso. Eu sou um universitário. Vivo lá no Brasil com casa, amigos, comida... Por mais que eu precise correr atrás pra passar no período, fazer um estágio para completar na renda... enfim, ainda sim, se o bicho pegar, eu tenho para onde correr". Aqui não. Claro, a não ser que você tem um fôlego capaz de vencer mais de oito mil quilômetros de corrida...
O bom é que a gente se junta de vez enquando pra jogar conversa fora, esquecer de tudo e se divertir um pouco. Conversamos sobre nossa viagem, as experiências no aeroporto, cada um fala coisas do lugar onde veio (tem gente de Natal, de MG, do RJ e de SP)... Dá pra despistar a saudade e tirar um pouco a cabeça do trabalho.
É tenso conviver com os nativos também. A gente vem aqui, um bando de universitáriozinho "classe média", trabalha três meses e volta pra nossa vidinha boa praça. Eles não. Um dos colegas de trabalho aqui tem três filhos, dois empregos e, todos os dias, vive a base de energético pra aguentar o tranco. A realidade é uma coisa muito dura. Outros, como aqui nos EUA a universidade é quase sempre - ou sempre, sei lá - paga, ficam com os olhos brilhando quando a gente fala que é universitário. "Jornalista, é?! Que legal..." uma observação que soa meio como uma realidade muito distante, quase uma piada irônica e ainda de humor negro para alguns.
Hoje sairam duas colegas de trabalho. Elas moram em Denver, há quarenta minutos daqui, e estavam achando muito puxado ir e voltar. As duas são irmãs e a mais nova tem 18 anos. Dezoito anos, dois filhos e um marido. Depois de engravidá-la, o cara mudou-se para o México e, segundo ela me disse, há quatro meses diz que voltará "na semana que vem". Ela me deu um conselho meio triste: "não se case. Por mais que as coisas sejam um mar de rosas, depois do casamento, são só brigas e discussões". Claro, conclusões de um casamento precosse, de dois adolescentes que ainda nem se auto-formaram, mas já decidiram formar uma família.
Mesmo assim, essa é a realidade. A realidade que não é só maravilhas num intercâmbio. Essa é a parte do "crescimento pessoal e o contato com outra realidade" que as agências tanto anunciam. Pelo menos essa é a experiência que eu estou tendo aqui.
Mas a gente tá firme. A maioria aqui acha que isso vai contar muito no nosso currículo, que a fluência no inglês e essa coisa toda de "se virar pra viver" vai nos mudar pra melhor. Eu faço parte dessa maioria. A maioria que está disposta a ajudar a minoria.
Quando a gente está longe, estranhos viram nossos melhores amigos em instantes. Isso é incrível. E um desses meus novos "melhores amigos (as)" está precisando de apoio. A gente sabe que o choque é grande para todo mundo, mas pra essa pessoa parece que foi maior. Tá barra pra ela, mas a gente tá aqui. Se é o bastante, é o que vamos saber.
"Nobody said it was easy". Mas tenho a certeza que, no fim, o saldo - mesmo que não financeiro - vai ser positivo.
=D
Inté